Ando na correria para adiantar muita coisa do doutorado, o que se soma às aulas e aos meus dois guris. Logo, posto pouco nesse blog enquanto não arranjo mais tempo.
Mas quebro com essa apatia para colocar aquiessa apresentação, que o Tarrask twittou hoje. Nem tem muito a comentar, esse pessoal da DS faz um levantamento preciso de diversos “cases que não deram certo” (para usar uma frase de uma antiga professora da Federal). São ótimos exemplos negativos que nos ensinam exatamento isso: como não fazer.
Essa foi uma eleição em que a maioria dos políticos e o próprio TSE mostraram que ainda “num intenderam a tal da internéti”, enquanto o Obama faz a festa nos E.U.A. principalmente através de uma rede de apoio de cidadãos comuns conectados e, principalmente, doando dinheiro). A maioria das campanhas políticas de prefeitos, inclusive os das grandes cidades, fez um uso muito limitado da web para mobilizar eleitores, informar ou qualquer outra coisa, limitando-se a ter uma página com informações sobre a campanha (zzzzzzz…) ou enviando spam (cada vez que eu ia limpar minha caixa anti-spam do UOL eu via que o Raul Henry tinha me enviado muitos emails… devo ser importante).
Mas de Belo Horizonte saiu um caso interessante e que vale a pena prestar atencão para as próximas campanhas. Lá o Aécio Nevez se articulou com o PT (do prefeito de BH, que não lembro o nome agora, mas que é super bem avaliado) e o PSB para lançar um candidato único à prefeitura, o Márcio Lacerda. Vocês devem ter visto algo sobre isso na imprensa, pois chamou a atenção pelo fato de ser a única capital em que PT e PSDB se aliaram.
Bom, em Minas Aécio parecia que podia tudo, e como o Lacerda contava com essa grande aliança de partidos, pelo que eu li na imprensa nacional na época parecia que o cara ia ser eleito facilmente no primeiro turno. Pois para surpresa geral aconteceu um segundo turno, e a zebra se deu por Leonardo Quintão, um jovem candidato de PMDB que encantou o eleitorado usando uma campanha com tom fortemente emocional (inclusive chorando de emoção no horário eleitoral) e carregado sotaque “caipira” típico de minas, a ponto de ter tantos cacoetes que chega a ser engraçado:
Nesses vídeos dá pra perceber como ele carrega no sotaque (“Beozonti”), adota um tom muito pessoal e espontâneo. Claro que a eleição se definiu por um conjunto complexo de fatores, mas claramente a comunicação havia sido pensada para criar uma simpatia do público por um candidato que seria supostamente “gente como a gente” (um dos slogans de campanha era “gente cuidando de gente”). Tanto é assim que ele passou a ser questionado sobre o assunto, como mostra esse vídeo de um debate:
Quando a equipe de campanha de Márcio Lacerda se deu conta, estavam enfrentando um segundo turno em que Quintão estava aparecendo na frente das pesquisas. E o mais grave é que o tempo para virar seria muito curto. Olhem para as pesquisas eleitorais das capitais onde houve segundo turno, e os índices de candidatos não mudaram muito entre a primeira e a última na grande maioria delas: isso acontece porque realmente o tempo é curto e muitos eleitores já estão decididos.
Mas não foi o caso de Belo Horizonte. Quintão despencou e acabou perdendo a eleição, e Lacerda ganhou. E agora o que nos interessa nesse post: a principal causa foi uma campanha agressiva e bem sucedida de “deconstrução” da imagem de Quintão que se utilizou de todas as armas, principalmente tentando mostrar que o candidato era um “fake”, inclusive no sotaque. Entre as ferramentas usadas, um vídeo viral impagável de Tom Cavalcanti imitando Quintão e seus cacoetes:
Vídeo não assinado pela campanha de Lacerda (para escapar do argumento de contra-fogo de que “estaria apelando para a baixaria”) e expondo as incongruências de Quintão de forma muito engraçada. Tom Cavalcanti, ao final do vídeo, ainda dá uma mensagem que conduz à conclusão de que Quintão seria “um bom ator”. O vídeo virou pauta da eleição através do boca a boca, e virou piada nas ruas imitar expressões do candidato como “dá um jóia”, “dá pra fazer” e “é gente (fazendo alguma coisa com ) gente”.
É notório que em campanhas eleitorais no Brasil, atacar frontalmente um candidato é muito arriscado, pois o eleitorado brasileiro (diferente do americano) tende a ver muito mal candidatos agressivos. Quem está atrás nas intenções de voto, e depende crucialmente desse ataque para crescer (sim, porque os votos tem que sair de algum lugar, e melhor que seja de quem está ganhando). Nas eleições de Belo Horizonte houve a demonstração de como um uso inteligente (e, claro, bem filha da puta) da internet pode atropelar um adversário antes que ele sequer perceba.
Para ilustrar algumas críiticas feitas em aula sobre como os publicitários ainda não entenderam exatamente como funciona a ternéti, vale a recomendação desse post do Brainstorm #9:
Para alimentar a discussão sobre o uso de mídias sociais em campanhas publicitárias: a Raquel Recuero, professora da UCPel, colocou alguns apontamentos sobre o assunto, principalmente apontando alguns problemas na maneira como publicitários enxergam as mídias sociais. Em algumas disciplinas, principalmente em Criação de Campanhas, já manifestei minha natureza ranzinza colocando uma série de problemas que vejo em algumas campanhas tomadas como “cases”. Bom, Raquel fez muito melhor e organizou alguns pontos que resumem de maneira bem concreta essa dificuldade em compreender os consumidores digitais que resultam em abordagens superficiais que podem matar a galinha na tentativa de achar o ovo de ouro (ou seja, mais resistência à publicidade).
Na aula de quarta comentamos o exemplo da banda Ok Go, que foi muito comentado na época como sucesso de viral, e que me chamou a atenção particularmente pelo senso de participação dos internautas (cada vez que eu digo essa palavra Deus mata um gato). O Youtube é cheio de paródias, os spoofs, em que uma pessoa qualquer de posse de uma câmera barata faz a sua versão trash de um videoclipe, um comercial, um programa de TV ou trecho de vídeo que caia no interesse público. É só ver o caso do Lasier Martins e o famoso vídeo das uvas, que despertou uma série de versões modificadas, melhoradas ou parodiadas.
O Ok Go foi uma banda que fez a fama através de um vídeo divulgado majoritariamente através do Youtube que se tornou bastante popularpor causa do boca-a-boca: eles produziram um novo clipe baseado em uma coreografia legal, mas simples e gravado no quintal de casa, e divulgaram.
Ao mesmo tempo iniciaram um concurso que incentivou as pessoas a reunirem os amigos, gravarem as suas versões e postarem no Youtube. O melhor vídeo, escolhido pela banda, ganharia o direito de acompanhá-los em uma turnê. O resultado foi que pipocaram paródias de todo tipo, e os próprios fãs da banda começaram a editar compilações do que foi chamado de “Ok Go Phenomenon”. Até hoje tem gente fazendo essa dancinha em festa de casamento nos Estados Unidos.
Eles mais ou menos seguiram adiante no uso do viral no vídeo da música Here it goes again, esse sim um hit, e que é baseado em uma idéia muito simples mas ao mesmo tempo muito legal… o uso infantil de esteiras rolantes. Acho que todo mundo que é doente mental quando vê uma esteira dessas pensa em ficar brincando de alguma forma, e os caras conseguiram OITO esteiras para brincar.
Um efeito do buzz que o vídeo despertou foi que muita gente começou a pegar esteiras emprestadas com os vizinhos e tentou imitar a banda em “festivais de talento” do colégio ou fazer sua própria versão do vídeo no Youtube.
Como comentei, exemplo já meio velho (de 2005-2006) e “não publicitário” (?), mas que como tinha gente que não conhecia, vale a pena resgatar. A banda não só “usou” os fãs (tipo “gravem um comercial da Doritos pra nós” ou “criem um slogan pro meu supermercado”), mas de certa forma estes “usaram” a banda pra se divertir (opa, não é isso que a gente geralmente faz com o que as bandas que a gente gosta?). Participação sincera, voluntária e consciente, o que falta para muitas ações de viral que estão sendo tratadas como case por aí.